As Aves Marinhas

NO CRAM-Q A MAIORIA DOS PACIENTES SÃO AVES MARINHAS.

A denominação ave marinha não tem valor taxonómico, funcionando apenas como referência ao uso do habitat de um determinado grupo de espécies. A alimentação no mar e a reprodução em terra são as características mais comuns destas aves ainda que, algumas delas, apresentem um carácter marinho sazonal ou ocasional.

Em Portugal Continental podemos encontrar espécies de aves marinhas pertencentes a vários grupos taxonómicos. Temos as ordens dos (i) Procellariiformes, (ii) dos Pelecaniformes e (iii) dos Charadriiformes.

As estratégias de alimentação são diferentes segundo as espécies. Algumas espécies de painhos e de gaivotas alimentam-se de peixe, plâncton ou matéria orgânica que apanham à superfície. Os corvos-marinhos, os airos e as tordas-mergulheiras movimentam-se perfeitamente debaixo de água, usando as patas palmadas e as asas permitindo uma maior eficiência na captura das suas presas, maioritariamente peixe. Os alcatrazes estão adaptados a mergulhos verticais e profundos a partir de grandes altitudes. O seu bico robusto não possui orifícios nasais para suportar a entrada na água após um mergulho picado de cerca de 20 metros de altura. Os garajaus e gaivinas alimentam-se de pequenos peixes que capturam mergulhando à superfície, por vezes após peneirarem sobre a sua presa. Os alcaides ou moleiros, para além de terem uma estratégia de alimentação semelhante à das gaivotas, são bastante oportunistas, perseguindo outras espécies de aves marinhas com o objetivo de lhes roubar o alimento – comportamento denominado por cleptoparasitismo.

 

Comportamento

As aves marinhas caracterizam-se por terem uma grande longevidade e efetuarem a sua criação em colónias, normalmente multiespecíficas, que podem atingir milhares de exemplares. Podem ter um carácter costeiro ou oceânico, e muitas delas apenas voltam a terra para se reproduzirem.

As gaivotas e os corvos-marinhos são as aves marinhas mais costeiras, vivem junto à linha de costa. Ao fim do dia agrupam-se em praias ou falésias rochosas para descansar. Algumas espécies têm uma distribuição mais ampla, viajando rio acima para longe do ambiente marinho. Por exemplo, o corvo-marinho-de-faces-brancas pode ser observado em barragens ou tanques de aquacultura do interior do país. As pardelas de menor dimensão podem ser observadas nas águas costeiras em busca de bancos de peixes. O alcatraz, os painhos e as cagarras frequentam águas mais afastadas da costa.

Algumas aves possuem anilhas com finalidade científica. Se observar ou encontrar alguma ave anilhada, viva ou morta, anote os seus dados e comunique-os, uma vez que são dados muito importantes para os investigadores que as marcaram.

Em Portugal, considera-se que existem 69 espécies de aves marinhas, 26 das quais estão incluídas no Livro Vermelho dos Vertebrados. Destas, 5 estão incluídas na categoria de vulneráveis: a cagarra (Calonectris diomedea), o painho-da-Madeira (Oceanodroma castro), a galheta (Phalacrocorax aristotelis), a gaivota-de-Audouin (Icthyaetus audouinii) e a chilreta (Sterna albifrins). A pardela-Balear (Puffinus mauretanicus) e a gaivina-comum (Sterna hirundo) estão consideradas em perigo e o airo (Uria aalge) criticamente em perigo.

 

Pardela-balear

Nome Científico: Puffinus mauretanicus

Descrição: é uma pardela de pequenas dimensões, com cerca de 33 cm de comprimento e com 85-90 cm de envergadura de asa. O dorso é castanho-acinzentado enquanto o ventre é branco-acastanhado sujo, com pouco contraste entre o escuro e o claro nos flancos, cabeça e peito. Existe alguma variação de tons de plumagem dentro desta espécie, podendo ir do quase totalmente escuro, semelhante a uma pardela-preta Puffinus griseus (embora esta seja de maiores dimensões), a plumagens semelhantes a uma pardela-sombria Puffinus puffinus, mas nunca apresentando o padrão preto e branco.

Biologia: nidifica em pequenas cavidades localizadas em penhascos e pequenas ilhas no arquipélago das Baleares, colocando um ovo em cada época de nidificação. Não se reproduzem até ao terceiro ano. A reprodução ocorre maioritariamente entre fevereiro e junho. Alimenta-se de pequenos peixes pelágicos que se movem em cardumes na coluna de água da plataforma continental. É uma espécie mergulhadora que muitas vezes se associa a golfinhos e atuns, na perseguição de presas. Por vezes alimentam-se das rejeições dos barcos de pesca, principalmente durante a época reprodutora.

Distribuição: distribui-se pelo Mediterrâneo ocidental na época de reprodução, migrando até ao golfo da Biscaia essencialmente no inverno. É um dos procellariiformes mais fáceis de observar ao longo da costa portuguesa, mantendo-se frequentemente perto do litoral. Esta espécie é mais comum fora da época de reprodução, entre junho e outubro. A costa portuguesa é um dos locais mais importantes a nível mundial para a invernada desta espécie, com grandes concentrações registadas principalmente nas IBAs marinhas do Cabo Raso e da Figueira da Foz.

 

Cagarra

Nome Científico: Calonectris diomedea

Descrição: é a maior pardela do Atlântico tendo um comprimento entre 45-56 cm e uma envergadura entre 112-126 cm. Distingue-se facilmente das restantes aves marinhas pelo bico amarelo, pelas asas brancas bordeadas a castanho nas partes inferiores e pelo tipo de voo muito característico, produzindo um arco entre as pontas das asas pronunciado sobre o mar.

Biologia: nidificam entre abril e outubro em cavidades localizadas em falésias, grutas e fajãs em ilhas. Alimentam-se essencialmente de peixes, cefalópodes e crustáceos que capturam em mergulhos mais ou menos superficiais. Muitas vezes seguem embarcações de pesca para se alimentarem de rejeições.

Distribuição: a cagarra é comum ao longo da costa portuguesa, especialmente durante a época de reprodução, devido às colónias localizadas no Arquipélago das Berlengas. No entanto, os maiores grupos são avistados nos meses finais da época de reprodução, entre agosto e outubro, quando se aproximam frequentemente de terra. Após a reprodução fazem migrações de longa distância (transequatoriais) para o Atlântico sul, passando a sua época não-reprodutora ao largo do Brasil ou da África do Sul. As maiores colónias ocorrem nos Açores.

 

Alcatraz, Ganso-patola

Nome Científico: Morus bassanus

Descrição: o alcatraz é uma ave da ordem dos Pelecaniformes. Esta é a maior ave marinha que ocorre habitualmente em águas portuguesas, com um comprimento médio de 92 cm e uma envergadura de asa de 175 cm. Apresenta asas compridas e estreitas, bico comprido e pontiagudo e a cabeça e o pescoço projetados bem para a frente, permitindo uma distinção rápida das outras espécies marinhas. Os adultos têm a cabeça amarelada, padrão preto na ponta das asas e branco no resto do corpo. Os juvenis têm uma plumagem castanha-acinzentada, que vai evoluindo ao longo dos anos tornando-se progressivamente mais branca, passando por 5 fases de plumagem até chegar a adulto. Caçam mergulhando com voos picados de grande altura e possuem adaptações especiais no bico, como a robustez e a ausência de orifícios nasais para evitar a entrada de água.

Biologia: nidifica apenas em colónias no norte da Europa. Apresenta uma reprodução sazonal entre março e setembro. Normalmente reproduz-se em grandes colónias localizadas em penhascos de algumas ilhas, mas também, por vezes, em áreas continentais. Alimenta-se de peixes pelágicos que na maioria são capturados por mergulho profundo de grandes alturas; perseguem ainda embarcações de pesca alimentando-se das rejeições.

Distribuição: é abundante ao longo de toda a costa portuguesa, sendo facilmente detectado a partir de terra. Apesar de ocorrer durante todo o ano, podem ocorrer concentrações de centenas de aves durante os picos de passagem migratória para sul em outubro e março.

 

Torda-mergulheira

Nome Científico: Alca torda

Descrição: tem um comprimento médio de 38 cm e envergadura de asa de 21 cm. Tem uma combinação de características distintivas, com um bico grosso e robusto com linhas brancas e com lados achatados, partes superiores pretas e partes inferiores brancas desde o pescoço até à cauda. Embora seja facilmente confundível com o airo Uria aalge, não apresenta projeção das patas para além da cauda e a tonalidade é preta ao contrário do airo que é castanho escuro.

Biologia: reproduzem-se em ilhas, rochas costeiras e falésias colocando o ovo diretamente sobre a rocha nua, se bem que podem juntar algumas pedras e detritos no local. A postura realiza-se entre maio e junho, e as crias abandonam o ninho a meados de julho. Os adultos alimentam-se de peixes pelágicos e, em Portugal durante o inverno a sardinha é bastante importante na  sua dieta. Procuram o seu alimento com mergulhos que por vezes podem atingir os 120 metros de profundidade.

Distribuição: é uma espécie invernante e migradora, que utiliza os sectores menos profundos da plataforma continental portuguesa, nunca pousando em terra. Por vezes ocorre relativamente perto da costa e também na foz dos rios. É facilmente observável durante a passagem migratória, que se dá entre outubro e novembro, para sul, e novamente entre finais de março e maio para norte.

 

Guincho

Nome Científico: Chroicocephalus ridibundus, Larus ridibundus

Descrição: é uma gaivota relativamente pequena com um comprimento médio de 38 cm e envergadura de asa de 91 cm. Por baixo é branca e por cima é prateada. As asas são cinzentas com um triângulo branco nas primárias. O bico e as patas são vermelhos. A partir de março, os adultos envergam a plumagem nupcial (capuz castanho, cor de chocolate). Pode formar bandos de centenas ou milhares de indivíduos e mistura-se frequentemente com outras espécies de gaivotas.

Biologia: o ninho é construído com vegetação sobre canas partidas, pequenos montes de terra, ou mesmo sobre terra seca, gramíneas ou areia. Geralmente nidifica em colónias densas com os ninhos colocados a uma média de 1 metro de distância. A alimentação consiste em insectos, anelídeos e invertebrados marinhos, e também pode comer peixes, roedores e sementes. Fora da época de cria a sua alimentação também inclui resíduos orgânicos domésticos.

Distribuição: Espécie invernante e migradora muito comum no litoral e estuários, e também em zonas interiores com barragens, lagoas, pauis ou terrenos agrícolas inundados. É uma espécie nidificante rara em Portugal, com registos reprodutores recentes no estuário do Mondego.

 

Gaivota-de-patas-amarelas

Nome Científico: Larus michahellis

Descrição: é uma gaivota grande com as patas amarelas. O seu tamanho é variável conforme o sexo tendo um comprimento entre 52 a 68 cm e uma envergadura de asa entre 120 a 155 cm. O dorso e asas são prateadas com pontas pretas e “pérolas” brancas. O bico é também amarelo. Os imaturos do 1º ano são castanhos e é quase impossível distingui-los das gaivotas-de-asa-escura. Nos indivíduos do 2º e 3º anos já é visível o dorso prateado.

Biologia: o ninho é construído com vegetação, penas e restos, sendo preferencialmente posicionado perto ou sob arbustos, em praias rochosas e ilhas de areia, falésias e ilhas fluviais. A espécie reproduz-se em colónias de grupos mono-específicos ou mistos. A dieta desta espécie consiste em peixes, invertebrados, répteis, pequenos mamíferos, lixo, vísceras e ovos de aves.

Distribuição: residente muito comum em toda a costa litoral portuguesa. Embora entre nos estuários não se distancia muito da foz, sendo mais escassa em meios estuarinos do que a gaivota-de-asa-escura Larus fuscus. Nidifica na orla costeira, sobretudo do Cabo Carvoeiro para sul. Para além da grande colónia localizada no Arquipélago das Berlengas, também se encontra em grandes densidades na costa algarvia. Há cerca de uma década começou também a nidificar em telhados de zonas urbanas, com registo em Viana do Castelo, Porto, Peniche, Cascais, Lisboa, Lagos, Portimão e Figueira da Foz.